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Por cá...

Por cá...

...

Há alturas em que me apetece recomeçar de novo.

Pura e simplesmente fechar uma porta e abrir outra. Deixar para trás o que chateia, dói e incomoda.

Alturas em que me canso de tentar colar o que está partido, ou de arranjar o que já nasceu mal, porque, por muito que me esforce, a marca do dano fica lá. A relembrar que não senhor, não está tudo bem e há ali uma fenda qualquer.

Neste momento é assim que estou. Cheia de cola. Farta das tentativas frustradas de tentar consertar o que não estava bem e com a sensação de que, ou aceito esta merda e me resigno ou então acabo-me aos poucos.

E a verdade é que, à bem pouco tempo, virei a mesa e recomecei de novo.

Acho que não valeu a pena.

O peito, o corpo e a vida doem mais.

Dos toques. A rebate ou não.

Lembro-me do toque do sino na igreja. Era um toque a morte que eu tinha a certeza que era por mim que soava também.

Lembro-me que o achei grandioso, talvez por parecer que carregava nele toda a dor do mundo. E no fundo achei que era bonito, apesar da sentença que encerrava. Profundamente triste e dilacerante, ecoava por ali fora, até ao mais fundo das minhas veias.

Percebi que o coração, na sua função mais básica de bombear o sangue pode doer muito. Doer até nos sentirmos nauseados. O corpo a desmaiar enquanto nos esforçamos por respirar. E ao espalhar o sangue espalha a dor por cada pedaço de carne do corpo. Até à pele. Às vezes ainda sinto a dor e é por isso que nem sempre suporto que me toquem. 

 

Quase

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Luis Fernando Verissimo